Boost Sentimental

Fuga ao Dissonante Mensurável

Last Letter 15 de Dezembro de 2010

Filed under: Sem categoria — Carina Ramos @ 0:38
A Ted Hughes,
porque a sua vida foi motivo de morte a quem o amou
e pela sua vida de expiação [lírica].

Impede-nos o egoísmo amar.

Impedimos, por orgulho, sem compaixão, ser-se amados.

Por não amar, sofremos;

Retomemos

E, um dia, morreremos.

Primeiro Rascunho de Ted Hughes sobre a noite da morte de Sylvia Plath

“O que nessa noite aconteceu no interior das tuas horas

é tão obscuro como se nunca tivesse acontecido.

Acumulação da tua vida toda,

esforço inconsciente como um nascimento

forçando a membrana de cada lento segundo

até ao segundo seguinte, só aconteceu

como se não pudesse ter acontecido,

como se não estivesse a acontecer”

Ted Hughes (tradução livre)

 

 

Desabafo do desalento proliferativo 7 de Maio de 2010

Filed under: Sem categoria — Carina Ramos @ 16:26

[Tumulto visceral de ninguém]

Pensas porque estás parado no recorte espaço-acção no tempo em que te encontras.

Queres uma definição, mas continuas invisual perante os espelhos da alma. Hoje sabes-te mais visceral. Em falência, por desequilíbrio electrolítico. Esse desequilíbrio que é só teu, essa falência que ninguém a pode compensar. Vísceras hediondas as tuas que conduzem à repulsa. Também tu enojas-te a ti. Indigno de paliação.

Aguardas o diluir dos sinais vitais porque já nada é vital. Tudo te foi tirado, ainda que indirectamente, inicialmente por ti. Permitiste. Como um criminoso, aguardas a sentença, a tua sentença, sendo que és inofensivo para a sociedade, porque no fundo sempre mantiveste com descrição o teu status de insignificante, a tua sentença é daquelas que apenas o tempo apaga. O teu relógio está parado, esqueces-te de lhe dar corda, de virar a ampulheta, de trocar a pilha, de acertar a hora com um fuso horário que é contemporâneo e, passou tanto tempo desde então que nem tu sabes quanto tempo já viveste assim e já te esqueceste. Alienação: é esse o teu estado. Alienado estás de uma sincronização que é mandatária.

Tudo isto contrapõe-se com o que foste e o ser metastático que agora és. A nobricidade omitida do ser traduz-se na infantilidade do sentir. Desfaleces e acordas no abandono irrepreensível. Porque é isso, o se ser invertido.

Retiras do teu vocabulário as palavras hedonismo e eudemonismo. São facilmente perecíveis.

A reter: de omnibus dubitandum.

 

Interregno Mortificante 6 de Fevereiro de 2010

Filed under: Sem categoria — Carina Ramos @ 17:24

A força da tragédia leva-me a conhecer a minha verdadeira natureza. Forçando-me a caminhar por este deserto de forma errónea e solitária. Não se trata de uma dedicação à tristeza, mas apenas duma sequência de pensamentos baptizados no infortúnio pessoal.

Hoje veio a reminiscência da minha mão. Mergulhada, presa pelos meus olhos naquelas águas que se fazem sentir, que de certo modo continuam a ser meio de evasão e de encontro pessoal adiado. Com o manejar firme e sinistro (não de classe gramatical mas o hemicorporal) sob o crepúsculo espelhado a estibordo… Aliando-o à velocidade, formei montanhas e vales holandeses, que por segundos foram águas do meu ser, quedando-se instantaneamente.

Esse gesto… Preciso de manuseá-lo neste vazio soldado na sinuosidade da mente.

 

Hiato Inefável 5 de Fevereiro de 2010

Filed under: Sem categoria — Carina Ramos @ 0:43

Tem sido isto.

Sem nunca ter deixado de o ser.

 

42 21 de Dezembro de 2009

Filed under: Sem categoria — Carina Ramos @ 15:35

Segues sempre a direito no trilho sinuoso. Na tua vida, nunca tiveste um objectivo preciso, os objectivos que te fixaste modificaram-se com o tempo, não pararam de mudar e, afinal, nunca os tiveste. Reflectindo bem, o objectivo último da vida humana não tem importância, é como um enxame de abelhas. Deixá-lo provoca remorsos, mas apanhá-lo provoca a maior desordem nos insectos. Mais vale deixá-lo onde está e observá-lo sem lhe tocar. Com este pensamento sentes-te mais leve, pouco importa onde vais, na condição que a paisagem seja bela.

Gao Xingjian

Penumbra, Gao Xingjian

 

clausura métrica 30 de Novembro de 2009

Filed under: Sem categoria — Carina Ramos @ 22:30

A felicidade deixou-me um dia sem se despedir entregando-me a uma melancolia de traços corruptos. E hoje, mais do que qualquer outro momento, sinto um desassosego violador.

Não consigo partilhar esta amargura, de forma concreta. O poder da sugestão é em mim soberano e não comprometedor. Impede-me, porque mais devastador do que a solidão é o conhecimento das ressonâncias da proximidade. Contudo, as minhas amizades não são fictícias nem os meus gestos. Esta incongruência faz pintar-me Sá Carneiro num quarto sem horizantes, circunspecto a um nó.

Descida em direcção ao mar.

 

“É uma sensação de violência eminente?” 21 de Novembro de 2009

Filed under: Sem categoria — Carina Ramos @ 20:10

Levando a lusco-fusco lúgubre o silêncio do canto do cisne que não se ouviu porque era mudo, tal como a sentença de morte a  que os sentimentos por mim foram condenados. Morre-se por aquilo que não se é e pelo que não se quer ser.

Encontra-se Leteu, de águas cristalinas, em que só os prosélitos podem saciar a sua sede, mas estes são-no por seguirem as sendas da virtude. Encontra-se, com o imperativo de um dia voltar.